Nota de Falecimento
É com profundo pesar e tristeza que anuncio a Sua morte. O meu maior lamento parte de tudo o que poderia ter sido e não foi, devido à sua resistência e também à minha tolice. Há muito vinha tendo presságios deste fato, que por fim veio mesmo a se concretizar. Na verdade, os presságios vinham se apresentando desde o início,mas eu,cega,iludida,os ignorei.Pior assim.Hoje,repensando este processo,quem sangrou mais,quem teve suas cicatrizes inflamadas,justo por não deixá-las se fecharem,fui eu.
Antes você tivesse me proibido de tornar a tocar no assunto, de olhar para sua cara,proferir qualquer palavra ou sequer o seu nome - maldito seja! Assim, você não teria por que tripudiar meus sentimentos,me rasgar,me humilhar, cuspir no meu orgulho e me fazer marionete do seu ego. Me enganar - e enganar a outros, o que é pior.
Omitir seus sentimentos por terceiros- já que o silencio ilude, pois a falsa calmaria abafa as verdadeiras tormentas- para poder alimentar a delicia de ter um outro ser humano,faminto de seu afeto,implorando pelas suas migalhas,prontamente recusadas em várias ocasiões.
Não me canso de dizer que cansei,nem me arrependo de fazer o que estou fazendo agora.Este é o último naco de sofrimento que eu exponho a Você,criatura maldita,para que tenha consciência do seu poder de destruir. Nada do que eu disser nestas linhas, que possa te chocar ou te assustar, é sequer um grão de areia se aproximado da dor,da vergonha e do desespero que me fez experimentar.Não há motivo ou circustância que te permita dizer que eu sou merecedora.
A sua morte se faz bem-vinda.Somente assim eu descansarei em paz.Em sinal de respeito,no entanto,lhe ofereço um réquiem.
Supernova
Quando há milhões de anos,você explodiu.Encheu meu mundo de luz,ofuscante,cegante,feriu e encantou meus olhos na mesma fração de segundo, como toda nova estrela faz numa existência obscura.
Quando sua luz estava no auge, me aqueceu,me afagou.Me queimou,algumas vezes aconteceu.Era radiante,era a vida na imensidão, na distância de mim mesma, a referência de casa no meu abandono.
Até que um dia,fez-se um eclipse!A escuridão,o medo,a minha insegurança em saber que você estava lá no alto,porém atrás de outro astro,me privando da sua luz.
A sua luz passou a diminuir.E eu senti frio.Minhas condições de viver foram se tornando cada vez mais agrestes.Mas você,lá no alto, não me enxergaria aqui, tão minúscula.
Resolvi habitar outros sistemas.Descobrir novos mundos,e por fim hei de encontrar estrelas mais potentes para me aquecer.Eu me contento em me reconhecer na minha minúscula forma de existência,errante,solitária às vezes, mas sempre em busca de novos sóis para viver,apenas com o meu próprio flutuar.
Você é uma forma grande demais.Uma estrela fixa, amarrada em seu brilho,mas também em sua finitude.Vai se desintegrar no espaço, se deixar engolir pela matéria negra, não será nem a sombra do brilho que proporcionou um dia.
Você vai desaparecer.Desexistir.
Apagar-se.
Adeus.
Fim.


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